Cérebro pode reforçar crises epilépticas durante o sono, sugere estudo da Mayo Clinic

ROCHESTER, Minnesota — O cérebro pode inadvertidamente “aprender” a ter crises epilépticas ao tratá-las como memórias importantes a serem armazenadas, de acordo com nova pesquisa da Mayo Clinic.
O estudo, publicado no Journal of Neuroscience, constatou que, após uma crise, o cérebro entra em um estado de sono profundo que imita os processos de consolidação da memória — e que esse efeito pode se estender ao sono da noite seguinte. Na prática, isso “registra” o trajeto da crise como se fosse uma memória comum, fortalecendo a doença. Os achados apontam para novas oportunidades de impedir a progressão da epilepsia ao direcionar a atividade cerebral nas horas imediatamente posteriores à crise e durante a noite subsequente de sono — um período crítico em que podem ocorrer alterações cerebrais prejudiciais.
“O sono é uma das ferramentas mais poderosas do cérebro para aprendizagem e memória”, afirma Vaclav Kremen, Ph.D., neurocientista e engenheiro da Mayo Clinic e autor principal do estudo. “O que estamos observando é que, após uma crise de convulsão, o cérebro pode ativar os mesmos processos biológicos usados para consolidar memórias, mas, nesse caso, reforçando as redes neurais que geram as crises.”
A epilepsia afeta cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo, e muitos pacientes continuam apresentando crises epilépticas apesar do uso de medicamentos. Compreender a relação entre crises e sono pode ajudar a explicar por que a epilepsia pode se agravar ao longo do tempo e por que problemas de memória, humor e sono são comuns em pessoas com a doença.
O estudo analisou registros cerebrais de longo prazo obtidos por meio de dispositivos implantados em 11 pessoas com epilepsia. A partir desses registros, os pesquisadores compararam os padrões de sono nas noites subsequentes a crises com aqueles observados em noites sem ocorrência recente de crises.
Os resultados mostraram que, após uma crise, o cérebro entrava de forma consistente em um estado prolongado e intensificado de sono profundo, conhecido como sono de movimentos não rápidos dos olhos (NREM). Durante esse período, as ondas cerebrais lentas tornavam-se mais intensas e mais abruptas — características fundamentais da consolidação da memória — especialmente nas regiões cerebrais específicas onde as crises se originam.
Ao mesmo tempo, o sono de movimentos rápidos dos olhos (REM), fundamental para o processamento emocional e a saúde cognitiva, apresentou redução. Em média, os pacientes dormiram por mais tempo e permaneceram mais tempo em sono profundo após as crises epilépticas, mas tiveram menos sono REM em comparação com as noites sem ocorrência de crises.
Os pesquisadores denominaram esse processo de consolidação relacionada à crise, fenômeno no qual as crises parecem sequestrar os mecanismos normais de aprendizagem do cérebro. Em vez de favorecer a recuperação cerebral, esse estado de sono pós-crise pode fortalecer circuitos neurais anormais, criando um ciclo vicioso em que cada crise aumenta a probabilidade de crises futuras.
“Em vez de tratar as crises como eventos isolados, esta pesquisa mostra que elas podem moldar ativamente o cérebro de maneiras que favorecem a progressão da doença”, afirma o Dr. Kremen.
De forma relevante, os achados apontam para uma possível nova janela terapêutica — as horas e as noites após uma crise — período em que uma intervenção direcionada poderia interromper esse processo prejudicial de consolidação.
“Se conseguirmos intervir com segurança durante essa janela pós-crise, poderemos enfraquecer as redes que geram as crises, em vez de reforçá-las”, afirma Gregory Worrell, M.D., Ph.D., neurologista da Mayo Clinic e autor sênior do estudo.
Essas descobertas reforçam a iniciativa Bioelectronics Neuromodulation Innovation to Cure (BIONIC) da Mayo Clinic, que busca desenvolver terapias personalizadas de neuromodulação para prevenir, tratar e potencialmente reverter doenças neurológicas. Ao combinar monitoramento cerebral de longo prazo, análises avançadas e a compreensão de como o cérebro se adapta após as crises, o estudo destaca o potencial das abordagens bioeletrônicas para promover um funcionamento cerebral mais saudável.
Pesquisas futuras terão como foco traduzir essas descobertas em terapias viabilizadas pelo BIONIC, incluindo sistemas adaptativos de estimulação cerebral em circuito fechado, projetados para responder em tempo real às crises epilépticas e aos estados de sono. Pesquisadores da Mayo Clinic já iniciaram o desenvolvimento de abordagens de nova geração com o objetivo de interromper esse ciclo e restaurar a atividade cerebral normal.
###
Sobre a Mayo Clinic
Mayo Clinic é uma organização sem fins lucrativos comprometida com a inovação na prática clínica, educação e pesquisa, fornecendo compaixão, experiência e respostas a todos que precisam de cura. Visite a Rede de Notícias da Mayo Clinic para informações adicionais sobre a Mayo Clinic.
Contato de mídia:
- Tia Ford, Departamento de Comunicações da Mayo Clinic, newsbureau@mayo.edu
[mayoNnVideoDownload]