Pesquisa

Estudo da Mayo Clinic aponta que medicamento de uso comum pode ajudar a prevenir insuficiência hepática potencialmente fatal após cirurgia

Dr. Patrick Starlinger realizando uma cirurgia.
Dr. Patrick Starlinger realizando uma cirurgia.

ROCHESTER, Minnesota — Um estudo multicêntrico, codirigido por pesquisadores da Mayo Clinic e da Michigan State University, constatou que pacientes que receberam ácido tranexâmico durante cirurgia hepática apresentaram uma probabilidade três vezes menor de desenvolver insuficiência hepática pós-hepatectomia do que pacientes que receberam placebo. Os resultados foram publicados na revista Blood.

A insuficiência hepática pós-hepatectomia é uma das complicações mais graves após cirurgias hepáticas e continua sendo uma das principais causas de morte após a ressecção hepática. Atualmente, não há medicamentos aprovados especificamente para prevenir essa complicação.

Os resultados fornecem evidências mecanísticas e clínicas de que atuar sobre o sistema fibrinolítico do organismo — responsável pela degradação dos coágulos sanguíneos — pode favorecer a regeneração hepática e reduzir o risco de insuficiência hepática após a cirurgia. O ácido tranexâmico é um medicamento que impede a degradação dos coágulos sanguíneos. Ele é amplamente utilizado para controlar ou prevenir sangramentos excessivos em casos de trauma, menstruação intensa, parto e procedimentos odontológicos ou cirúrgicos.

“A possibilidade de um medicamento amplamente disponível e de baixo custo reduzir substancialmente esse risco é animadora, pois tem potencial para melhorar os desfechos de pacientes submetidos à cirurgia para câncer de fígado e outras doenças hepáticas graves,” afirma Patrick Starlinger, M.D., Ph.D., cirurgião hepatobiliar e pancreático da Mayo Clinic em Rochester e coautor sênior do estudo.

Quando parte do fígado é removida para tratar câncer ou outras condições, o tecido remanescente precisa se regenerar para restaurar a função normal do órgão. Em alguns pacientes, essa regeneração não ocorre após a cirurgia, levando à insuficiência hepática.

Inicialmente, os pesquisadores observaram, em modelos pré-clínicos, que a redução temporária do plasminogênio, uma proteína envolvida no sistema fibrinolítico, favorecia a regeneração hepática após a ressecção. Em seguida, analisaram dados do estudo HeLiX, um grande estudo clínico internacional no qual pacientes submetidos à ressecção hepática receberam ácido tranexâmico ou placebo. O efeito protetor do ácido tranexâmico foi mais pronunciado entre pacientes com comprometimento da função hepática antes da cirurgia, um grupo com risco particularmente elevado de desenvolver insuficiência hepática pós-hepatectomia.

Os resultados também desafiam um pressuposto consolidado sobre a regeneração hepática.

“Durante décadas, acreditou-se que o plasminogênio era necessário para a regeneração hepática com base em modelos pré-clínicos,” afirma o Dr. Starlinger. “Ao utilizarmos uma abordagem mais precisa e reversível, observamos o efeito oposto. Nossos resultados abrem uma nova perspectiva para compreender como os sistemas de coagulação e fibrinólise do organismo influenciam a recuperação hepática após a cirurgia.”

Os pesquisadores afirmam que os resultados sustentam a realização de novos estudos para determinar se o ácido tranexâmico poderá passar a integrar uma estratégia de prevenção da insuficiência hepática pós-hepatectomia em pacientes com maior risco.

“Embora esses resultados ainda precisem ser confirmados em um ensaio clínico especificamente desenhado para esse propósito, eles oferecem uma forte justificativa para avaliar se o ácido tranexâmico pode ajudar a proteger os pacientes contra uma das complicações mais temidas da cirurgia hepática,” afirma o Dr. Starlinger.

Para consultar a lista completa de autores, declarações e fontes de financiamento, consulte o estudo.

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