• By Kevin Punsky

Transplante de Fezes Humanas: Pode Funcionar Melhor que Antibióticos

October 27, 2014
María Vázquez Roque, MD

María Vázquez Roque, MD

É difícil crer que o excremento humano possa servir para curar doenças, de maneira ainda mais eficaz que os antibióticos. No entanto, a medicina já comprovou que isso é possível, ao realizar um Transplante de Microbiota Fecal que apresentou resultados surpreendentes em pessoas que sofrem de infecção recorrente, por causa da bactéria Clostridium difficile.

As doenças gastrintestinais provocam grande deterioração na saúde das pessoas, podendo levar à morte. Muitas dessas patologias têm sua origem em uma alteração do microbioma humano ou na flora intestinal. Essa alteração pode ter múltiplas causas e pode ser responsável por outros problemas de saúde, como a obesidade, o diabetes, a aterosclerose, a síndrome da fadiga crônica e ainda problemas neurológicos, como a esclerose múltipla. Um dos problemas intestinais mais difíceis de combater e que tem sua origem nesse desequilíbrio é a infecção causada pela bactéria Clostridium difficile (CD). Hoje, há mais esperança de cura para essa doença com um transplante fecal.

Especialista no assunto, a médica María Vázquez Roque, professora assistente de gastrenterologia e hepatologia na Clínica Mayo de Jacksonville, esclarece dúvidas sobre esse tema.

O que é disbiose intestinal e quais são os fatores que podem provocá-la?

A disbiose intestinal é uma alteração que afeta diretamente a flora intestinal. Devemos entender que nosso organismo possui um microbioma intestinal, composto por muitas bactérias. Ao falar de bactérias, não devemos pensar apenas em “inimigas” de nossa saúde. Ao contrário, a maioria das colônias microbianas são benignas e benéficas, já que realizam uma série de funções que favorecem a resistência às infecções (colonização de parasitas e vírus) e às inflamações, além de promover o sistema imunológico local, protegendo o organismo contra o câncer, entre outras doenças. Estamos falando, portanto, de um microbioma intestinal saudável, cuja função básica é manter nosso intestino em boas condições.

O equilíbrio da flora intestinal pode se alterar por muitos fatores. Entre eles, os antibióticos podem alterar a flora intestinal e, em consequência, a área é colonizada por agentes patogênicos. A má dieta, pobre em fibras e rica em açúcares, maus hábitos de higiene, como não lavar as mãos frequentemente, e um estilo de vida pouco saudável e sedentário são todos elementos constituintes que podem causar uma possível disbiose intestinal.

Quando o microbioma intestinal já não é saudável, a que doenças ele se associa?

As alterações e o desequilíbrio do microbioma intestinal intervêm em numerosas doenças de tipos distintos, tais como doenças gastrintestinais, incluindo a infecção por Clostridium difficile (CD), a síndrome do intestino irritável (SII), transtornos metabólicos como a obesidade, fígado gorduroso não alcoólico, aterosclerose, resistência à insulina e diabetes do tipo 2. Outras doenças que podem decorrer da disbiose intestinal são a síndrome da fadiga crônica e doenças neurológicas, como a esclerose múltipla.

A infecção pela Clostridium difficile tem tido prioridade para ser tratada através do transplante de microbiota fecal. Por quê?

A CD é o melhor exemplo de doença resultante da alteração do microbioma intestinal. É detectada pela ocorrência de diarreia, ao que pode se somar uma dor abdominal e febre. Em 2010, a incidência anual de Clostridium difficile foi estimada em 500.000 casos, com morte de 15.000 a 20.000 pessoas. Um grande problema é que esse tipo de infecção tem taxas de recorrência de 10% a 20%, após o episódio inicial, e entre 40% a 65% dos pacientes, que sofrem uma recorrência, provavelmente terão CD recorrente depois de haver concluído o tratamento com antibióticos. As estatísticas registram um aumento nas taxas de colectomia (extirpação de uma parte do cólon) e de mortalidade. Por outro lado, essa patologia implica altos custos para os sistemas de saúde. Somente nos EUA, esses custos são estimados em, pelo menos, um bilhão de dólares por ano.

Como normalmente se trata essa infecção?

Basicamente, com dois antibióticos, o Metronidazol e a Vancomicina, que podem ser administrados isoladamente ou em combinação, nos casos mais graves. Recentemente, surgiu um novo antibiótico macrocíclico, a Fidaxomicina. Esse medicamento demonstrou que pode diminuir consideravelmente as recaídas, porém seu custo é excessivamente alto. Enquanto o tratamento com Vancomicina pode custar US$ 680,00, com a Fidaxomicina esse custo se eleva para cerca de US$ 2.800,00. Outras pesquisas estão em andamento com anticorpos monoclonais, cujos estudos estão na fase 3, e com uma vacina que está em experiência. Não há estudos que justifiquem o uso de probióticos, sais biliares e lavagens intestinais completas para o tratamento da CD. Porém, há caso em que todas as tentativas falham. Por isso, se experimenta o Transplante de Microbiota Fecal, que vem obtendo resultados surpreendentes.

Em que consiste esse novo tratamento?

O conceito é inserir fezes de uma pessoa saudável em uma pessoa doente, para curar uma determinada doença. A meta é reconstruir a homeostase microbiana normal do intestino e, com isso, romper o ciclo de agentes antibióticos que alteram o microbioma. A verdade é que não se trata de algo novo. Já no Século IV, na China, o médico Ge Hong descreveu soluções fecais para o tratamento da intoxicação alimentar e da diarreia grave. E na dinastia Ming, no Século XVI, Li Shi Zhen utilizou a solução fecal – a qual denominou de “sopa amarela” – no tratamento das doenças abdominais com diarreia grave, febre, dor e vômitos.

Quais tem sido os resultados obtidos até agora e em quantos pacientes?

O estudo, publicado em 31 de janeiro de 2013 no The New England Journal of Medicine, foi feito com 43 pacientes com a bactéria Clostridium difficile. Os pacientes foram divididos em três grupos: ao primeiro, foi administrada a Vancomicina; ao segundo se aplicou a Vancomicina e foi feita uma lavagem intestinal; no terceiro foram feitos transplantes de microbiota fecal. Do grupo que só recebeu o antibiótico, cerca de 30% registrou cura sem recaída. No grupo ao qual se agregou a lavagem dos intestinos, a cura sem recorrência foi de apenas 23,1%. No grupo submetido ao transplante de microbiota fecal, por sua vez, 93,8% dos pacientes melhoraram e não registraram recaídas no pós-tratamento.

Como é realizado esse procedimento?

É recolhida, um um recipiente, amostra fresca de fezes do doador, à temperatura ambiente, seis horas antes do início do transplante. As fezes são tratadas na unidade de endoscopia para seu processamento. O paciente se prepara como para qualquer outra colonoscopia. O colonoscópio é introduzido através do ânus até o ponto em que se permite colocar o material fecal no íleo terminal e no ceco (primeira parte do intestino grosso). Posteriormente, é feito um acompanhamento por telefone do paciente, após um, três e seis meses do tratamento.

Como se pode evitar os riscos de infecções ou de contágio de outras doenças que o doador possa ter?

Há um protocolo médico para a seleção do doador, como também critérios de inclusão e exclusão para o recipiente. Se dá preferência a doadores que sejam membros da família, que são submetidos a diversos exames para se certificar da ausência de patologias infecciosas, como o HIV, os transtornos autoimunes, o uso de drogas ilícitas e outros múltiplos fatores que podem colocar em risco a saúde do recipiente.

Que outras doenças podem, potencialmente, ser tratadas com esse método?

Estudos foram feitos para se avaliar a aplicação desse tipo de transplante no caso de outras doenças, associadas a alterações do microbioma intestinal. Foi experimentado em três casos de prisão de ventre ou constipação crônica (CC). Um mês depois, todos os pacientes tinham movimentos intestinais diariamente. Também em três pessoas com esclerose múltipla, que tinham CC, se evidenciaram a reversão dos sintomas neurológicos, depois de um acompanhamento por dois a 15 anos. Até agora, não existem mais estudos que avaliem o papel do transplante nessa doença.

Há um caso relatado sobre uma doença conhecida como púrpura trombocitopênica idiopática (PTI), que afeta as plaquetas. Os médicos trataram uma mulher de 39 anos, que padecia de colite ulcerativa e púrpura trombocitopênica. Antes do transplante fecal o número de plaquetas era de 96.180 e, meses depois do transplante, a recontagem de plaquetas foi de 190.000 – isto é, voltou aos níveis normais. Ao mesmo tempo, houve uma redução considerável dos sintomas de colite ulcerosa. Hoje em dia, há estudos clínicos em andamento para avaliar o transplante fecal como possível terapia em casos de síndrome do intestino irritável e doença inflamatória intestinal, bem como para a obesidade e para alterações metabólicas.

O futuro do transplante fecal pode ser considerado promissor?

Definitivamente. Já está em fase de testes a realização desse tratamento com cápsulas de fezes, quimicamente manipuladas. E o que se denominaria Transplante de Microbiota Fecal Modificado. Em um estudo clínico, realizado com 30 pacientes que sofriam de infecção por Clostridium difficile recorrente, foram administradas cerca de 30 cápsulas em cada um, divididas em dois dias consecutivos. Os dados preliminares demonstram que 29 desses pacientes não registraram recaídas até hoje. Um estudo clínico muito maior está programado para o final de 2014.

Para mais informações sobre tratamento de doenças gastrintestinais na Clínica Mayo de Jacksonville, Flórida, contate o departamento de Serviços Internacionais pelo telefone 1-904-953-7000 ou envie e-mail para [email protected]. Para mais informações em português, visite mayoclinic.org/portuguese.

CONTACTO: Guta Bacelar, 305-598-0125, [email protected]

# # #

Sobre a Mayo Clinic
Completando 150 anos de serviços à humanidade em 2014, a Mayo é uma das principais clínicas mundiais, dedicada à atenção médica, pesquisa e educação para pessoas em todas as etapas da vida.  Não tem fins lucrativos. Para mais informações, acesse 150years.mayoclinic.org ou newsnetwork.mayoclinic.org.

Please login or become a member to post a comment.

María Vázquez Roque, MD